quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A Fome de Marina

Há pouco, Caetano Veloso descartou do seu horizonte eleitoral o presidente Lula da Silva,justificando: “Lula é analfabeto”. Por isso, o cantor baiano aderiu à candidatura da senadora Marina da Silva, que tem diploma universitário. Agora, vem a roqueira Rita Lee dizendo que nem assim vota em Marina para presidente, “porque ela tem cara de quem  está com fome”.Os Silva não têm saída: se correr o Caetano pega, se ficar a Rita come.Tais declarações são espantosas, porque foram feitas não por pistoleiros truculentos, mas por dois artistas   refinados, sensíveis e contestadores, cujas músicas nos embalam e nos ajudam a compreender a  aventura da existência humana.


Num país dominado durante cinco séculos por bacharéis cevados, roliços  e enxundiosos,eles naturalizaram o canudo de papel e a banha como  requisitos indispensáveis ao exercício de governar, para o qual os  Silva, por serem iletrados e subnutridos, estariam despreparados.Caetano Veloso e Rita Lee foram levianos, deselegantes e preconceituosos. Ofenderam o povo brasileiro, que abriga, afinal, uma multidão de silvas famélicos e desescolarizados.


De um lado, reforçam a ideia burra e cartorial de que o saber só existe se for sacramentado pela escola e que tal saber é condição sine qua non para o  exercício do poder. De outro, pecam querendo nos fazer acreditar que quem está com fome carece de qualidades para o exercício  da representação política.A rainha do rock, debochada, irreverente e crítica, a quem todos admiramos, dessa vez pisou na bola. Feio.“Venenosa! Êh êh êh êh êh!/ Erva venenosa, êh êh êh êh êh!/ É pior do que cobra cascavel/ O seu veneno é cruel…/ Deus do céu!/ Como ela é maldosa!". Nenhum dos dois - nem Caetano, nem Rita - têm tutano para entender esse Brasil profundo que os silvas representam.

A senadora Marina da Silva tem mesmo cara de quem está com fome? Ou se  trata de um  preconceito da roqueira, que só vê desnutrição ali onde  nós vemos uma beleza frágil e sofrida de Frida Kahlo, com seu cabelo  amarrado em um coque, seus vestidos longos e seu  inevitável xale? Talvez Rita Lee tenha razão em ver fome na cara de Marina, mas se  trata  de uma fome plural, cuja geografia precisa ser delineada. Se for  fome, é fome de quê?


A primeira fome de Marina é, efetivamente, fome de comida, fome que roeu sua infância de  menina seringueira, quando comeu a macaxeira que  o capiroto ralou. Traz em seu rosto as  marcas da pobreza, de uma fome  crônica que nasceu com ela na colocação de Breu Velho,  dentro do  Seringal Bagaço, no Acre. Órfã da mãe ainda menina, acordava de madrugada,  andava quilômetros para cortar seringa, fazia roça, remava, carregava água, pescava e até  caçava. Três de seus irmãos não agüentaram e acabaram aumentando o alto índice de  mortalidade infantil.

Com seus 53 quilos atuais, a segunda fome de Marina é dos alimentos que, mesmo agora,  com salário de senadora, não pode usufruir: carne vermelha, frutos do mar, lactose,condimentos e uma longa lista de uma  rigorosa dieta prescrita pelos médicos, em razão de  doenças contraídas  quando cortava seringa no meio da floresta. Aos seis anos, ela teve o  sangue contaminado por mercúrio. Contraiu cinco malárias, três  hepatites e uma leishmaniose.A fome de conhecimentos é a terceira fome de Marina. Não havia escolas  no seringal. Ela  adquiriu os saberes da floresta através da experiência e do mundo mágico da oralidade.  Quando contraiu hepatite, aos 16 anos, foi para a cidade em busca de tratamento médico e  aí mitigou o apetite por novos saberes nas aulas do Mobral e no curso de Educação  Integrada, onde aprendeu a ler e escrever.

Fez os supletivos de 1º e 2º graus e depois o vestibular para o Curso de História da Universidade Federal do Acre, trabalhando como empregada doméstica, lavando roupa,cozinhando, faxinando. Fome e sede de justiça: essa é sua quarta fome. Para saciá-la,militou nas Comunidades Eclesiais de Base, na associação de moradores de seu bairro, no  movimento estudantil e sindical. Junto com Chico Mendes,  fundou a CUT no Acre e depois  ajudou a construir o PT.

Exerceu dois mandatos de vereadora em Rio Branco , quando devolveu o  dinheiro das mordomias legais, mas escandalosas, forçando os demais  vereadores a fazerem o mesmo. Elegeu-se deputada estadual e depois  senadora, também por dois mandatos, defendendo os índios, os trabalhadores rurais e os povos da floresta. Quem viveu da floresta, não quer  que a floresta morra.

A cidadania ambiental faz parte da sua quinta fome. Ministra do Meio Ambiente, ela criou o Serviço Florestal Brasileiro e o Fundo de Desenvolvimento para gerir as florestas e estimular o manejo florestal. Combateu, através do Ibama, as atividades predatórias.Reduziu, em três anos, o desmatamento da Amazônia de 57%, com a apreensão de um  milhão  de metros cúbicos de madeira, prisão de mais 700 criminosos  ambientais, desmonte de mais  de 1,5 mil empresas ilegais e inibição de  37 mil propriedades de grilagem.

Tudo vira bosta. Esse é o retrato das fomes de Marina da Silva que - na voz de Rita Lee - a descredencia para o exercício da presidência da República porque, no frigir dos ovos,“o ovo frito, o caviar e o cozido/ a buchada e o cabrito/ o cinzento e o colorido/ a ditadura e o oprimido/ o prometido e não cumprido/ e o programa do partido: tudo vira bosta”.Lendo a declaração da roqueira, é o caso de devolver-lhe a letra de outra música - ‘Se Manca’ - dizendo a ela: “Nem sou Lacan/ pra te botar no divã/ e ouvir sua merda/ Se manca, neném!/ Gente mala a gente  trata com desdém/ Se manca, neném/ Não vem se achando  bacana/ você é  babaca”. Rita Lee é babaca? Claro que não, mas certamente cometeu uma  babaquice.

Numa de suas músicas - ‘Você vem’ - ela faz autocrítica antecipada, confessando: “Não entendo de política/ Juro que o Brasil não é mais chanchada/ Você vem… e faz piada”. Como  ela é mutante, esperamos que faça um gesto grandioso, um pedido de desculpas dirigido  ao  povo brasileiro, cantando: “Desculpe o auê/ Eu não queria magoar  você”.A mesma bala do preconceito disparada contra Marina atingiu também a ministra Dilma Rousseff, em quem Rita Lee também não vota porque, “ela  tem cara de professora de matemática e mete medo”. Ah, Rita Lee conseguiu o milagre de tornar a Ministra  Dilma menos antipática! Não usaria essa imagem, se tivesse aprendido elevar uma  fração a uma potência, em Manaus, com a professora Mercedes Ponce de Leão, tão fofinha,  ou com a nega Nathércia Menezes, tão altaneira.

Deixa ver se eu entendi direito: Marina não serve porque tem cara de fome. Dilma, porque mete mais medo que um exército de logaritmos, catetos, hipotenusas, senos e co-senos.Serra, todos nós sabemos, tem cara de vampiro. Sobra quem? Se for para votar em quem tem  cara de quem comeu (e gostou), vamos ressuscitar, então, Paulo Salim Maluf ou Collor de  Mello, que exalam saúde por todos os dentes. Ou o Sarney, untuoso, com sua cara de   ratazana bigoduda. Por que não chamar o José Roberto Arruda, dono de um apetite voraz e  de cuecões multi-bolsos? Como diriam os franceses,  “il péte de santé”. O banqueiro  Daniel Dantas, bem escanhoado e já desalgemado, tem cara  de quem se alimenta bem. Essa é  a elite bem nutrida do Brasil…

Rita Lee não se enganou: Marina tem a cara de fome do Brasil, mas isso não é motivo para  deixar de votar nela, porque essa é também a cara da resistência, da luta da inteligência  contra a brutalidade, do milagre da sobrevivência, o que lhe dá autoridade e a credencia  para o exercício de liderança em nosso país.

Marina Silva, a cara da fome? Esse é um argumento convincente para votar nela. Se eu tinha alguma dúvida, Rita Lee me convenceu definitivamente.

Por José Ribamar Bessa Freire*

(*) Professor, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas
(UERJ) e pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social
(UNIRIO

2 comentários:

  1. Que comentário lamentável e preconceituoso da "Rainha do Rock"... ela deve estar ficando esclerosada, só pode. Ou foi o excesso de ácido.

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